Em entrevista ao O Jeito que é Nosso, pároco da Basílica Santuário de Nazaré fala sobre “É Círio em Belém”, terceira parceria musical com Amanda de Paula, e revela como a arte se tornou instrumento de evangelização e valorização da cultura paraense.

Por Arcângela Sena | O Jeito que é Nosso

Em Belém do Pará, outubro tem uma sonoridade própria. Entre as orações, os passos dos romeiros e as promessas que atravessam gerações, a música também encontra espaço para expressar a devoção a Nossa Senhora de Nazaré. É nesse encontro entre fé, memória e identidade cultural que nasce “É Círio em Belém”, a nova canção lançada em outubro de 2026 pelo Padre Cavalcante, pároco da Basílica Santuário de Nazaré.

Barnabita, jornalista de formação e responsável pela coordenação da comunicação do Santuário, Padre Cavalcante é uma das figuras mais carismáticas da Basílica. Seu trabalho aproxima a tradição religiosa das linguagens contemporâneas, fazendo da comunicação e da arte caminhos para alcançar diferentes públicos. A música, nesse percurso, ocupa um lugar especial.

A nova composição dá continuidade ao projeto musical desenvolvido em parceria com Amanda de Paula, que chega ao terceiro ano consecutivo de lançamentos dedicados à devoção nazarena. A iniciativa começou com “A Tua Corda Vai Chegar”, canção que destacou um dos símbolos mais representativos do Círio: a corda, elemento que traduz a ligação dos devotos com Nossa Senhora de Nazaré.

Em 2025, a parceria apresentou o clipe oficial “Plácido, Sou Eu”, que resgatou a história de Plácido de Souza, reconhecido pela tradição como o homem que encontrou a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. A produção também valorizou a arquitetura da Basílica, que passava por um processo de restauração naquele período.

Agora, em “É Círio em Belém”, a proposta é reunir símbolos da tradição nazarena e testemunhos de fé em uma composição de caráter oracional. O manto de Nossa Senhora ganha destaque, enquanto a corda reaparece como representação da devoção popular. O clipe também recupera um relato de milagre atribuído à intercessão de Maria, testemunhado pelo Padre Geovana Campo na década de 1970, quando ele era pároco. A história envolve um casal que enfrentava dificuldades para engravidar e que, segundo o testemunho, recebeu a graça de conceber uma filha.

Mais do que acompanhar o calendário festivo, a iniciativa busca registrar e transmitir aspectos da religiosidade paraense por meio de uma linguagem que atravessa gerações. Para Padre Cavalcante, a música tem a capacidade de tocar dimensões da experiência humana que nem sempre são alcançadas apenas pela palavra falada.

Nesta entrevista pingue-pongue ao O Jeito que é Nosso, o sacerdote conta como a música entrou em sua trajetória, explica a escolha dos elementos que inspiram as canções e reflete sobre a força da arte como instrumento de evangelização. Ao final, deixa uma mensagem aos devotos para o Círio de Nazaré de 2026.

“A música tem o poder de tocar o interior das pessoas”

O Jeito que é Nosso — O Círio de Nazaré é uma das maiores manifestações de fé mariana do mundo. Como essa dimensão da devoção inspira a criação de canções que dialogam com a história e a cultura de Belém?

Padre Cavalcante — O Círio de Nazaré, em Belém do Pará, tem sua origem em 1793 e representa uma expressão potente da devoção mariana no coração da cidade das mangueiras. Por meio do Círio, nossa cidade passa a ser reconhecida como sede de uma das maiores manifestações de fé mariana do mundo inteiro.

O Círio é, portanto, uma ocasião de acolher muitas pessoas que vêm de lugares longínquos e de levar ao coração de cada uma delas essa devoção, banhada pela história e pela cultura das nossas raízes locais.

O Jeito que é Nosso — Este é o terceiro ano de lançamentos musicais em parceria com Amanda de Paula. Como surgiu essa proposta e o que diferencia cada uma das canções?

Padre Cavalcante — Este é o terceiro ano em que, junto com Amanda de Paula, fazemos o lançamento de canções marianas que retratam e levam elementos muito próprios das raízes devocionais nazarenas aqui em Belém do Pará.

No primeiro ano, com “A Tua Corda Vai Chegar”, apresentamos esse elemento tão próprio do Círio, que expressa a conexão do devoto com Nossa Senhora.

No segundo ano, trouxemos a figura de Plácido de Souza e também a Basílica, que passava pelo processo de restauração. A ideia era apresentar Plácido, grande devoto de Nossa Senhora de Nazaré e filho da nossa terra, valorizando sua figura e a Basílica de Nazaré, com sua arquitetura sacra magnífica, como uma extensão, uma expressão e uma continuidade daquilo que Plácido edificou no século XVIII.

Este ano, com a música “É Círio em Belém”, trouxemos o elemento manto e reafirmamos a presença da corda. Por meio de uma canção bem oracional, retratamos a essência de tantos milagres que acontecem por intercessão de Nossa Senhora de Nazaré e que as pessoas vêm testemunhar na Basílica Santuário, sobretudo no segundo domingo de outubro.

O Jeito que é Nosso — O clipe de “É Círio em Belém” apresenta um testemunho de milagre ocorrido na década de 1970. Por que resgatar essa história e de que maneira ela se conecta à mensagem da canção?

Padre Cavalcante — No clipe da canção lançada este ano, apresentamos o milagre testemunhado pelo Padre Geovana Campo, na década de 1970, na época em que ele era pároco. Trata-se da história de um casal que não podia engravidar e que, por intercessão de Nossa Senhora, recebeu a dádiva de conceber uma filha.

Trouxemos um resumo desse testemunho no clipe, sempre com a compreensão de que tudo acontece por intercessão de Deus e de Nossa Senhora.

O Jeito que é Nosso — Sua relação com a música começou antes do sacerdócio? Como a arte passou a fazer parte da sua trajetória?

Padre Cavalcante — Meu contato com a música vem desde os primeiros anos na escola. Até a quarta série, estudei em um colégio de religiosas, das Missionárias de Santa Teresinha, em Capitão Poço. Por meio das irmãs, a arte sempre esteve presente.

Depois, venho de uma paróquia muito musical, onde a musicalidade é expressiva. Nesse ambiente paroquial, a música foi me envolvendo. Comecei a participar de festivais promovidos pelos grupos jovens da paróquia, até seguir o caminho da vocação sacerdotal.

Como padre, sempre me esforcei para vincular o ministério à arte. Por isso, hoje, não apenas nas minhas missas, mas também nas minhas pregações em geral, procuro fazer o ministério sacerdotal dialogar com a realidade musical.

Soma-se a isso o trabalho desenvolvido em nossos projetos sociais. Depois que assumi a direção dos quatro projetos, trabalhamos intensamente para levar a arte para dentro deles, fazendo com que fosse um instrumento de resgate, de valorização de talentos e também uma forma de democratizar a música, o teatro e outras expressões artísticas, enriquecendo a vida daqueles que participam das nossas atividades.

O Jeito que é Nosso — O senhor é jornalista de formação e coordena a comunicação do Santuário. De que maneira essa experiência com a comunicação contribui para transformar a mensagem religiosa em uma linguagem capaz de alcançar diferentes públicos?

Padre Cavalcante — A comunicação é um caminho importante para aproximar as pessoas da mensagem que desejamos transmitir. Quando conseguimos associar a mensagem religiosa à realidade das pessoas, utilizando linguagens que fazem parte do cotidiano delas, ampliamos as possibilidades de diálogo e de aproximação.

A música é uma dessas linguagens. Ela permite comunicar a fé de maneira sensível, levando em consideração a história, a cultura e os sentimentos das pessoas. É uma forma de fazer com que a mensagem ultrapasse os espaços tradicionais e alcance o coração de quem a recebe.

O Jeito que é Nosso — O senhor costuma relacionar a beleza à capacidade de transformar vidas. Qual é o poder da arte, especialmente da música, na evangelização?

Padre Cavalcante — Dostoiévski dizia, em sua obra O Idiota, que “a beleza salvará o mundo”. Tomo essa frase como uma verdade concreta naquilo que vivo e experimento no meu dia a dia.

A beleza da arte e da música tem o poder de tocar, sensibilizar e alcançar o interior das pessoas de uma forma tão peculiar e especial que, por vezes, acaba derrubando muralhas, aproximando corações e despertando sentimentos belos.

Por isso, acredito muito na potência e no poder da música como forma de evangelização. A arte, nesse contexto, é para mim uma ferramenta eficaz para chegar ao coração das pessoas.

Às vezes, uma música consegue resumir, em poucos versos, aquilo que uma homilia, mesmo mais prolongada, talvez não consiga alcançar e expressar da mesma maneira. Por meio da música, temos uma estrada bonita e eficaz para levar o Evangelho ao coração das pessoas.

O Jeito que é Nosso — Para encerrar, que mensagem o senhor deixa aos devotos de Nossa Senhora de Nazaré para o Círio de 2026?

Padre Cavalcante — Desejo a todos os devotos de Nossa Senhora de Nazaré um feliz e abençoado Círio 2026!

Peço que, no Coração Imaculado de Maria, brotem bênçãos e abundância para todos nós. Que este seja um Círio de paz, de abundância, de concórdia e de fortalecimento dos nossos propósitos.

Que Maria possa passar à frente em tudo, abrindo portas, portões e corações, e nos ajudando a encontrar sempre os nossos caminhos e os caminhos do Céu.

Que Deus abençoe a todos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

A fé que também se canta

Ao transformar símbolos, memórias e testemunhos em música, Padre Cavalcante contribui para manter viva uma tradição que se renova a cada outubro. A corda, o manto, a história de Plácido de Souza e os relatos de graças alcançadas deixam de ser apenas referências da devoção e passam a compor narrativas que ajudam a contar a história do povo paraense.

Em “É Círio em Belém”, a música assume o papel de ponte entre a experiência religiosa e a identidade cultural amazônica. É uma maneira de preservar histórias, emocionar devotos e fazer com que a mensagem do Círio alcance novos públicos, dentro e fora do Pará.

Porque, em Belém, a fé não se manifesta apenas nas ruas, nas promessas e nas procissões. Ela também se revela nas melodias que acompanham os romeiros, nas lembranças compartilhadas entre gerações e nas canções que, a cada ano, encontram novas formas de expressar o amor por Nossa Senhora de Nazaré.

O Círio também é isso: uma história de fé que se conta, se canta e se renova no coração de quem acredita.

O Jeito que é Nosso — Jornalismo com alma feminina, valorizando histórias, identidades e expressões culturais da Amazônia.

Clique no link abaixo e assista o clipe oficial:

https://youtu.be/_0eQyMpp_H4?is=CIXJ0Xq41MpXb9rL

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