Texto: Vitória Raquel | Imagens: Moisés Valente

Em outubro, as ruas de Belém são tomadas por milhares de devotos que acompanham a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. Com as mãos erguidas, os joelhos no chão e o coração cheio de fé, os romeiros enfrentam o cansaço e os desafios do percurso para agradecer por graças alcançadas e renovar seus pedidos à Rainha da Amazônia. Mas, para além dos passos que acompanham a procissão, o Círio também é construído pelas mãos de quem trabalha nos bastidores, transformando devoção em cuidado com o próximo.

Na Avenida Presidente Vargas, em Belém, um grupo reúne famílias e voluntários em torno desse propósito. Idealizado pela promesseira Bia Melo, o Águas de Maria nasceu de uma promessa feita em um momento de angústia e, desde 2016, mantém viva uma corrente de fé e solidariedade durante a Trasladação. Em 2026, a iniciativa completa dez anos de história.

A promessa que deu origem ao projeto

Em 2016, a mãe de Bia foi diagnosticada com isquemia. Diante da preocupação e da angústia de ver a mãe enfrentando um problema de saúde, Bia recorreu à fé e fez uma promessa a Nossa Senhora de Nazaré: se ela ficasse curada, passaria a distribuir água aos romeiros durante a Trasladação.

“No auge do meu desespero, eu fiz uma promessa a Nossa Senhora de Nazaré, que, se ela ficasse curada, eu iria distribuir água na Trasladação”, conta a promesseira.

Até então, Bia costumava acompanhar o Círio à distância, como telespectadora. O cumprimento da promessa, porém, mudou sua relação com a manifestação de fé e a aproximou de uma realidade que, até aquele momento, ela observava de longe: a entrega dos promesseiros que percorrem as ruas em demonstrações de devoção e sacrifício.

“Eu achei que era o mínimo que eu poderia fazer. Eu sempre fui muito solidária a quem vai na corda. Eu acho que é um ato de sacrifício e fé. Eu nunca estive próxima da dor do outro. Então, aquele momento foi um impulso de dor, e eu senti que tinha que retribuir e agradecer”, relata Bia.
A promessa também guardava uma surpresa para a própria família. Segundo a promesseira, sua mãe não sabia do compromisso que a filha havia assumido. Hoje, ela participa ativamente da ação, ajudando na organização e na distribuição de água. A história que começou com um pedido de cura se tornou, assim, uma experiência compartilhada entre mãe, filha e todos aqueles que se juntaram à iniciativa.

De dez pacotes a uma missão coletiva

O primeiro ano do projeto foi marcado pela simplicidade. Ao lado do marido, Walber Luiz, Bia iniciou o cumprimento da promessa em 2016, levando apenas dez pacotes de água. O casal deixou o carro na Avenida Presidente Vargas e seguiu a pé até o local onde faria a distribuição.

Ao chegar, os dois se depararam com uma grande quantidade de água e encontraram um grupo que já atuava naquele ponto da procissão. Foi ali que receberam orientações sobre a dinâmica da ação e sobre os cuidados necessários durante a distribuição.

A experiência também revelou a dimensão da Trasladação, que Bia ainda não conhecia de perto. O que começou como uma promessa pessoal se tornou uma vivência tão marcante que, antes mesmo de terminar aquela primeira participação, o casal já pensava no ano seguinte.

“Quando eu fiz a promessa, eu não tinha noção da proporção que a Trasladação tinha. Foi tão lindo o que a gente viveu, que a gente já começou a ter expectativa para 2017”, recorda.

Dez anos de crescimento e união

Com o passar dos anos, o Águas de Maria deixou de ser uma iniciativa restrita ao casal. Familiares começaram a participar, amigos foram convidados e novas pessoas se aproximaram, movidas pelo desejo de contribuir com o trabalho. Atualmente, o grupo reúne cerca de 60 voluntários e estima distribuir 300 pacotes de água durante a Trasladação de 2026.

O crescimento também exigiu organização. Bia e Walberganharam experiência ao longo das edições e passaram a adotar estratégias para organizar a logística e permitir que todos participassem da ação. Mais do que aumentar a quantidade de água distribuída, o objetivo é garantir que o trabalho continue sendo realizado de forma coletiva.

Essa trajetória também pode ser observada nas diferentes gerações que passaram pelo projeto. Crianças que começaram a participar ainda pequenas, aos quatro anos de idade, hoje são adolescentes e continuam fazendo parte dessa história. É um sinal de que a iniciativa não se limita a um único dia de procissão: ela cria vínculos e transmite, de geração em geração, o valor de servir ao próximo.

Para Walber, o envolvimento das pessoas está ligado a um propósito que vai além da amizade ou da admiração pelos idealizadores. A união acontece porque os participantes encontram no projeto uma oportunidade de contribuir com algo em que acreditam e de compartilhar uma mesma missão.

As camisas utilizadas pelo grupo também ajudam a contar essa história. A cada ano, uma nova estampa reúne os nomes das famílias que contribuem com a iniciativa. É uma forma de levar essas famílias simbolicamente para a Trasladação e apresentar suas participações a Nossa Senhora de Nazaré, como expressão de fé e gratidão.

Uma corrente de solidariedade que se fortalece

A divulgação do Águas de Maria acontece principalmente pelo tradicional boca a boca. Não há exigência de um valor específico para contribuir, nem a participação se limita à doação de água. Quem deseja ajudar pode colaborar de diferentes maneiras, inclusive com o trabalho de organização e distribuição.

Essa abertura permite que mais pessoas encontrem uma forma de fazer parte da iniciativa, de acordo com suas possibilidades. Cada contribuição ajuda a manter o projeto e amplia o alcance de uma ação que tem como objetivo oferecer apoio aos romeiros durante a caminhada.

Foi também por meio de um encontro inesperado que a equipe do Jeito Que É Nosso conheceu o grupo. Em uma das ações, Bia e Walber decidiram distribuir água em frente ao prédio da comunicóloga Arcângela Sena. Em um gesto de união, ela propôs reunir os pacotes de água que já tinha aos do projeto, somando esforços para fortalecer a iniciativa.

O encontro reforçou, na prática, uma das mensagens presentes no Círio: a solidariedade ganha força quando as pessoas se unem por um propósito comum. Quando diferentes iniciativas se encontram, a ajuda pode chegar a mais pessoas e transformar pequenos gestos em uma grande corrente de cuidado.

Fé que não busca reconhecimento

Ao longo de uma década, o Águas de Maria ganhou novas camisas, mais voluntários e uma quantidade cada vez maior de água distribuída. Mas, para Walber, o principal crescimento não está nos números. Ele destaca que a motivação do grupo deve permanecer na devoção a Deus e a Nossa Senhora de Nazaré, e não no reconhecimento individual de quem realiza o trabalho.

Para o casal e os voluntários, a iniciativa é uma forma de agradecer pela graça recebida e de colocar a própria disposição a serviço de outras pessoas. O protagonismo, nessa perspectiva, não está em quem entrega a água, mas no propósito que mantém tantas mãos trabalhando juntas.

Dez anos depois da promessa que deu origem ao projeto, o Águas de Maria continua mostrando que a vivência do Círio também acontece longe dos holofotes. Está na preparação, na organização, nas famílias que se mobilizam, nos voluntários que dedicam tempo à ação e no gesto de oferecer água a quem enfrenta horas de caminhada movido pela fé.

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